Sara Bentes, a artista multimídia PDF Imprimir E-mail
Ter, 25 de Agosto de 2009 18:25

Foto de  divulgação Sara Bentes ( cantora sentada vestida de vermelho sorrindo) Desde criança, Sara Bentes, que é deficiente visual,  já dava sinais de que seria uma grande artista.  Aos 13 anos de idade iniciou seu contato com o palco e com técnicas de canto, em grandes corais de Volta Redonda, sua cidade natal.  Dentre os diversos prêmios  que ganhou, destacamos o prêmio Rosemary Kennedy Para Jovens Solistas, concurso internacional que reúne e premia artistas com alguma deficiência. Além do talento artistico, Sara é repórter e apresentadora, além de dar aulas e palestras.

 Portal Mara Gabrilli: Sara, você é uma pessoa multimidia: canta, compoõe, toca, ecreve - soube que fez jornalismo... O que anda fazendo atualmente?
Sara Bentes: Sou cantora e compositora. Também ministro aulas de canto popular e trabalho como palestrante na área de inclusão de pessoas com deficiência. Estudei jornalismo sim, mas não concluí o curso, faltou pouco mais de um período, e nunca deixei de atuar na área, sou apresentadora e repórter do telelibras, o telejornal com língua de sinais da Ong Vez da Voz, e escrevo bastante, seja as matérias do meu próprio site, ou poemas, crônicas, contos e romances; tenho uma coluna no site Médio Paraíba, onde publico crônicas e pequenos contos, neste ano devo lançar meu primeiro livro de poesia, e estou escrevendo outro  sobre minhas experiências com minha deficiência visual.

PMG: Em qual  lugar uma pessoa com deficiência visual se sente mais  incuido e em qual não  e sente? Por que?
Sara: Eu posso dizer por mim. Sinto-me incluída em lugares onde as pessoas sabem, ou procuram saber, das minhas necessidades enquanto pessoa com baixa visão e cuidam para que elas sejam atendidas, em lugares onde posso realizar as atividades com autonomia, lugares que oferecem recursos de acessibilidade, como braille, piso tátil, áudio-descrição e tantos outros. Não me sinto incluída em lugares que não oferecem acessibilidade e nem a disposição das pessoas para minimizar os obstáculos, o que significa ainda a maioria dos ambientes por onde passo, e acredito que essa seja a realidade também das demais pessoas com deficiência visual.

PMG: Você acha que o fato de ter uma  deficiência lhe tornou mais sensivel para buscar o caminho das artes?
Sara: A busca pela arte já faz parte da minha essência; venho de uma família já bem envolvida com a música, a literatura. A deficiência visual me possibilita sim aprender muitas coisas, sobre a superfície e a essência das coisas, sobre humildade, confiança etc. O que acontece é que já nasci com a deficiência, e não sei como seria a Sara sem essa característica, não sei se meu caminho seria diferente, mas de uma coisa sei, que minha essência seria a mesma e que outros desafios chegariam em minha vida para me ensinar o que tenho de aprender e que procuro aprender hoje com a dificuldade visual e tudo que ela implica em minha vida.

PMG: Por que escolheu jornalismo?
Sara: Sempre fui apaixonada pela linguagem escrita e falada, pelas diferentes maneiras de comunicação em geral. Considero fundamental o papel dos meios de comunicação na vida e na história da sociedade e amo a diversidade, e jornalismo é uma profissão que pode abraçar todos os assuntos do mundo. Na verdade sempre soube que meu principal caminho seria na arte, mas acreditei que o jornalismo me daria suporte e conhecimento para desenvolver minhas atividades artísticas.

PMG: Tirando a dificuldade da falta de acessibilidade para os deficientes visuais nas universidades, algum outro fator lhe prejudicou no estudos?
Sara: Não, a falta de acessibilidade sempre foi a principal barreira, desde o primário.

PMG: Como era o seu relacioanamento com seus professores na faculdade de jornalismo?
Sara: Muitas vezes era bem desgastante, pois eu precisava lembra-los de minhas necessidades, tinha que cobrar deles e de outros profissionais, como coordenador de curso, recursos e medidas de acessibilidade. Poucos professores se demonstraram completamente preparados e conscientes quanto à necessidade de adaptar determinadas atividades. Na verdade mesmo lembro-me, com muito carinho, de uma professora, que nunca me deixou de fora.

PMG: Estamos preparados para a inclusão educacional?
Sara: Estamos nos preparando; e cabe a nós, pessoas com deficiência, ajudar nesse processo, informando, conscientizando, dizendo tudo o que precisamos, discutindo, relatando, compartilhando experiências. A inclusão, seja educacional, social, familiar, é um processo de cada grupo, e que vai avançando de acordo com a mudança de paradigmas e, consequentemente, de atitudes; como toda grande transformação na história da humanidade, a inclusão plena de pessoas com deficiência é um processo lento, construído de pequenos passos aqui, um grande passo ali, outros pequenos por lá, mas sempre passos à frente. Estamos avançando.

PMG: Como uma comunicadora, vc acha que a mídia tem tido papel importante na inclusão de pessoas com deficiência?
Sara: A mídia tem um papel fundamental nesse processo, mas nem sempre o tem desempenhado bem. Principalmente a televisão tem o poder de formadora de opinião, de reforçar ou dissolver mitos e preconceitos. Estamos vendo personagens de novela com deficiência, mais matérias sobre inclusão e acessbilidade, mais atenção a atletas paraolímpicos, programas apresentados por pessoas com deficiência, várias contribuições na quebra de idéias preconcebidas sobre o tema, mas, por outro lado, ainda vemos muitas abordagens negativas e sensacionalistas, explorando a comoção, a piedade e reforçando antigos preconceitos. Precisamos entender que os profissionais dos meios de comunicação são pessoas, que também trazem de casa, da rua, do passado, inúmeros preconceitos, e que também ainda estão aprendendo sobre inclusão; o tom e a atenção que esses profissionais dão à deficiência na verdade reflete o que pensa nossa sociedade. A abordagem mais positiva e construtiva sobre deficiência e tudo que está relacionado a ela é algo recente em nossa história, e, na minha opinião, devemos olhar com otimismo tudo o que já foi conquistado junto à mídia, mesmo porque esse avanço demonstra o quanto já caminhamos também junto à sociedade. 

PMG: O que pode ser feito para praticar a inclusão social por completo?
Sara: Devemos continuar avançando nesse processo, informando, conscientizando, sensibilizando e reivindicando. Na minha opinião, ainda cometemos um erro muito grande, que é calcular e avaliar a inclusão com a pergunta “quanto”, quando na verdade o mais importante é o “como”: Como estão sendo integrados os x alunos com deficiência que ingressaram nas escolas? Como estão sendo usados os recursos de acessibilidade? Como está o preparo dos professores e outros profissionais da escola para lidar com as pessoas com deficiência? Como os funcionários da empresa receberam os x profissionais com deficiência que foram contratados? Como foi adaptado o espaço de trabalho para que eles realizem seus trabalhos com autonomia e eficiência? E, com muita discussão, experiência e troca de idéias continuaremos avançando, com a ajuda da mídia e com a vontade dos principais interessados na inclusão plena: as pessoas com deficiência.

PMG: Você conhece profissionais na área da comunicação com deficiência visual? Considera esta área preconceituosa?
Sara: Sim, tenho amigos cegos formados na área da comunicação. Há pessoas preconceituosas em todas as áreas. Sinceramente, não sei dizer se na área da comunicação existe mais barreiras do que em outras áreas. O que percebo é que no mundo da imagem (televisão) existe uma padronização que dificulta a aceitação da imagem do diferente, o que representa barreiras para profissionais com deficiência que desejam atuar como repórteres, apresentadores, comentaristas etc. Vejo também inúmeras barreiras para as pessoas surdas, seja para os profissionais, seja para os consumidores dos serviços de comunicação.










 



 

 
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