Varela é membro do centro de Estudos do Genoma Humano, único centro especializado no Brasil que oferece exames diagnósticos e aconselhamento genético para famílias de afetados pela doença. Em uma entrevista direto da USP ela nos explica a causa desse distúrbio genético e relata os problemas comportamentais acarretados pela síndrome, que segundo ela pode estar presente na vida de muitos obesos ainda não diagnosticados.
A compulsão alimentar ainda é muito associada a um comportamento decorrente de transtornos psicológicos, emocionais e ambientais, mas especialistas da genética mostram que exceções a essas regras existem, prova disso é a síndrome de Prader Willi, uma das doenças genéticas pesquisadas por Monica Castro Varela, formada há 13 anos em biologia pela Universidade de São Paulo, onde iniciou seu mestrado em 1996 pesquisando os mecanismos genéticos que levam ao quadro clínico da Prader Willi.
Portal Mara Gabrilli: O que é feito para diagnosticar a síndrome de Prader Willi?
Monica: Extraímos o DNA do sangue periférico do paciente e fazemos o teste laboratorial para analisar seu material genético. Caso o diagnóstico seja confirmado usamos o sangue do pai e da mãe para saber a causa da alteração. Em 30 dias no máximo o diagnóstico está pronto.
PMG: O que é apontado nesse diagnóstico para confirmar a síndrome?
Monica: A síndrome de Prader Willi é causada pela ausência da expressão de alguns genes localizados em um determinado segmento cromossômico, mais especificamente, no cromossomo 15 de origem paterna. Nos portadores de Prader Willi esses genes paternos não estão ativos. E para um indivíduo ser normal, ele precisa de uma copia materna e outra paterna desses referidos genes.
PMG: Essa mutação ocorre da mesma forma com todos os portadores?
Monica: Não, na verdade, existem três mecanismos genéticos que levam ao quadro de Prader Willi. O mais freqüente ocorre em 70 % dos casos, é quando o paciente sofre uma deleção [perda do material genético] nesse cromossomo 15. De 20 a 25 % dos casos, o paciente tem dissomia uniparental, ou seja, os dois cromossomos 15 são herdados da mãe. E em mais ou menos 5% dos casos, os pacientes têm uma alteração no que chamamos de centro de imprinting [região que controla a expressão do cromossomo 15], onde o cromossomo paterno pode estar presente, mas os genes não se expressam.
PMG: A maternidade tardia ou o uso de medicamentos durante a gestação podem ter relação com a síndrome de Prader Willi?
Monica: Até onde sabemos o uso de medicamentos não tem ligação com a mutação ocasionada na síndrome. Com relação à idade materna, em alguns casos, quando os dois cromossomos 15 são herdados da mãe, pode existir uma ligação com a maternidade avançada, onde pode ocorrer erro na meiose materna. Em nossa amostra observamos que a maior parte dos casos de dissomia, as mães tinham idade avançada.
PMG: E essas causas proporcionam variações do quadro clínico de cada pessoa com Prader Willi?
Monica: Não, de um modo geral, o que nós observamos em mais de 150 pacientes diagnosticados dentro dessas três classes, tanto a deleção quanto a dissomia e a mutação no centro de imprinting, os portadores apresentam basicamente as mesmas características clínicas.
PMG: E quais são essas características?
Monica: Esses pacientes nascem com hipotonia [baixo tônus muscular] e dificuldade de sucção, têm um atraso grave do desenvolvimento [retardo nas fases típicas de desenvoltura psicomotora do bebê]. Em média, eles vão sentar sem apoio por volta de um ano de idade e andar com dois. Nos primeiros meses é muito difícil ganhar peso, mas depois eles começam a se alimentar melhor e engordam muito rápido, tornando–se obesos.
PMG: Por quê?
Monica: Em um determinado momento, que varia entre um e cinco anos de idade, eles perdem a noção de saciedade e começam a comer compulsivamente.
PMG: E o que leva essa compulsão alimentar?
Monica: É uma deficiência de neurotransmissores no hipotálamo [região do cérebro responsável por processar a mensagem de saciedade durante a refeição]. Ninguém sabe ainda exatamente o porquê isso ocorre, o que pode se garantir é que não se trata de nenhum defeito no cérebro. Se você fizer uma ressonância, por exemplo, encontrará tudo normal. Mas a falta desses neuro-transmissores faz com que eles percam essa noção de saciedade.
PMG: Essa perda de saciedade pode desenvolver nos pacientes surtos psicóticos com relação à comida?
Monica: Sim, eles apresentam uma série de problemas de comportamento, que começam na infância e são agravados com o passar dos anos. No ínicio, eles são crianças muito dóceis, mas quando os pais passam a negar comida, eles podem ficar bastante agressivos, porque sabem que não podem comer, que são obesos porque comem, mas não conseguem se segurar.
PMG: E como essa psicose é manifestada pelo paciente?
Monica: O fato deles não conseguirem se controlar os leva muitas vezes a mentiras no sentido de conseguir comida. Eles costumam mentir para a família, para amigos e parentes, dizendo, por exemplo, que os pais não dão comida a eles, levando-os a comer o lanche dos colegas e causando problemas na cantina, onde a refeição geralmente é paga.Temos relatos de crianças que vão ao freezer pegar comida congelada para comer. Tudo o que você possa imaginar eles comem, desde comida estragada até de cachorro. O que eles puderem fazer para conseguir comida, eles irão fazer.
PMG: Medidas como a cirurgia de redução de estômago ou a prática de exercícios físicos podem contribuir para a melhora do quadro?
Monica: A cirurgia de redução de estômago é impraticável, porque eles não conseguem realmente se controlar no ato de comer, mesmo que o estômago não comporte tanto alimento. Teve um caso onde um paciente realizou essa cirurgia de redução e veio a óbito, pois continuou comendo compulsivamente e seu estômago acabou explodindo. Já os exercícios físicos, nós não sabemos se surtiriam efeito, porque é muito difícil fazer com que eles os pratiquem. Um dos problemas de comportamento do portador de Prader Willi é o sedentarismo e a dificuldade com mudança de rotina.Eles têm muita sonolência diurna e só aceitam o que estiver dentro do ritmo deles.
PMG: Inibidores de apetite ou medicamentos psiquiátricos não podem controlar essa condição?
Monica: Não, nenhum desses inibidores de apetite ou calmantes surtem efeito, nós não sabemos ainda como chegar para tratar essa compulsão, tirar esse apetite exacerbado. O único tratamento, por enquanto, que tem mostrado algum efeito nos pacientes é o de hormônio de crescimento, que faz com que os portadores cresçam um pouco mais [a estatura média desses pacientes fica abaixo de 1,50m] e não apresentarem uma obesidade tão alarmante, mas a ciência ainda não descobriu um medicamento que cesse ou controle esse transtorno alimentar.
PMG: Com mais de cinqüenta anos descrita, por que a síndrome de Prader Willi é ainda tão desconhecida?
Monica: Hoje em dia ela não esta tão desconhecida assim. Alguns anos atrás, na década de 90, quando os trabalhos de pesquisa foram iniciados aqui no laboratório, os pacientes vinham encaminhados pela Endocrinologia, onde os médicos percebiam a obesidade, mas não tinham idéia da causa. Agora, de uns tempos para cá, com a divulgação da síndrome em congressos, muitos pacientes já chegam com o pré-diagnóstico da Neurologia. Mas como toda doença genética, acaba sabendo melhor os médicos que vão mais a fundo no assunto. Mas, ultimamente, temos recebido resultados positivos de uma parcela da comunidade medica. Já diagnosticamos bebês com apenas uma semana de nascimento.
PMG: Partindo da idéia de que a obesidade não era estudada ou vista como uma causa de mutação genética até um tempo atrás, você acha que existem muitos portadores de Prader Willi não diagnosticados?
Monica: Com certeza.Tem muitos casos de pessoas obesas com síndrome de Prader Willi e não diagnosticadas. Muitas vezes recebemos pais de adolescentes. Eles dizem que levavam os filhos ao médico desde pequenos, mas os profissionais da saúde alegavam que era excesso de preocupação por conta desses pais. E o diagnóstico não era feito, infelizmente.
PMG: E qual seria a solução para o esclarecimento do assunto? Campanhas do Ministério da Saúde podem ser viáveis?
Monica: Eu não sei se campanhas do Ministério da Saúde seriam a solução, até porque a prevalência da síndrome é baixa [de um para cada 15/20 mil nascimentos]. O problema talvez esteja nas faculdades de medicina, onde não sabemos o que exatamente o estudante está aprendendo, o quão boa é essa Instituição em que ele está se formando. Hoje em dia, sabemos que no curso de graduação é falado de Prader Willi, mas não podemos garantir o esclarecimento que é dado ao assunto em todos os locais. Então, o que conta muito ainda é a experiência de cada médico, o lugar que ele irá estagiar ou fazer residência.
PMG: Você disse que a prevalência da síndrome é baixa, isso significa que o risco de recorrência na mesma família é nulo?
Monica: Depende do mecanismo genético que a gerou. Se o caso da Prader Willi for por perda de material genético do cromossomo 15 paterno [deleção] ou pela herança dos dois cromossomos 15 da mãe [dissomia uniparental] o risco de recorrência é de apenas um 1 %, é o risco que eu ou qualquer outra mulher tem, mas se a causa for um defeito no centro de imprinting, e um estudo apontar que essa alteração foi herdada, o risco de ter outra criança com Prader Willi é alto, de 50%.
PMG: E tratando-se de filhos gêmeos, como funciona a dinâmica de recorrência?
Monica: Em gêmeos dizigóticos um pode nascer com a mutação e o outro não. Já, em gêmeos monozigóticos ambos serão portadores.
PMG: E o próprio portador de Prader Willi, ele pode ter filhos?
Monica: Os meninos são inférteis. Até hoje não existe nenhum relato de um portador do sexo masculino fértil.O desenvolvimento sexual deles não ocorre. Eles têm micropênis e geralmente apresentam criptorquidia [os testículos não estão localizados na bolsa escrotal, são internos]. As meninas podem ter menstruação, mas muito irregular, chegando a menstruar apenas três vezes durante a vida.No entanto, já ocorreu de uma jovem com Prader Willi ter uma filha com síndrome de Angelman, que é uma mutação ocasionada no mesmo seguimento cromossômico da Prader Willi diferenciando apenas pela ausência dos genes maternos ao invés dos paternos.Se ela tivesse passado o cromossomo 15 normal teria tido um filho sem a síndrome, mas como ela transferiu o cromossomo com deleção, ela teve uma filha com a síndrome de Angelman.
PMG: Se compararmos um portador de Prader Willi e um outro individuo obeso sem razões genéticas, encontraremos diferenças em relação a perda e ganho de peso?
Monica: Sim, o portador de Prader Willi sempre apresenta uma história típica no início da vida: hipotonia, dificuldade de sucção e atraso do desenvolvimento neuropsicomotor. Além disso, esses pacientes apresentam uma necessidade calórica bem menor que de uma pessoa normal. Enquanto uma pessoa sem Prader Willi tem uma dieta por volta de 2 mil calorias, um portador da síndrome pode consumir no máximo 1.300 dessas calorias. Então isso acaba agravando ainda mais o quadro, pois eles ganham peso muito mais rápido.
PMG: E isso acarreta diferenças metabólicas no que diz respeito às doenças decorrentes da obesidade como diabetes e colesterol?
Monica: Na verdade, as chances de um portador de Prader Willi ter diabetes e colesterol são as mesmas que as de um obeso sem causa genética. Inclusive, a maior causa de óbito da síndrome vem desses problemas acarretados pela obesidade.
PMG: Então a realização do diagnóstico antes do período de obesidade seria uma solução para a queda da taxa de mortalidade da doença?
Monica: Possivelmente, quanto antes o diagnostico for dado, melhor. Só assim os pais terão conhecimento claro a respeito da alimentação do filho e saberão como educar a criança no sentido do que ela pode comer e o quanto ela pode comer, podendo assim buscar apoio em outras terapias.