Você sabia que em um ano desperdiçamos mais de um mês dentro de uma condução, seja ela automóvel, ônibus ou metrõ? E tratando-se de tempo, o personagem desta semana sabe muito bem como usá-lo. E de maneira ágil e eficaz. Há oito anos, Rodrigo Oliveira, que sempre foi um leitor lento e com dificuldade para se concentrar, navegando na internet, descobriu o audiolivro e se apaixonou com a possibilidade de ouvir o que teoricamente ele teria de ler. Foi assim que em 2009, ele criou a Tempo Livro, uma empresa escpecializada em livros em formato de áudio. No endereço http://www.tempolivro.com.br é possível encontrar uma série de obras de diversas categorias de autores nacionais e internacionais. O Portal Mara Gabrilli conversou com o empresário, confira a entrevista
Portal Mara Gabrilli: Por que ter uma empresa de livros em formato de áudio?
Rodrigo Oliveira: Me apaixonei por esse formato de livro, pois resolvia duas questões importantes na minha vida: a sede por cultura e a falta de tempo para ler. Além disso, eu passei a gostar muito da experiência de ouvir um livro, que acabou virando uma forma de entretenimento. Entretanto, existiam algumas barreiras importantes de acesso a este formato de livro, pois eles praticamente não existiam no Brasil. Todas as obras que eu ouvia, eram obras adquiridas nos EUA ou Europa. Isso me causava um tremendo desconforto, porque eu era um consumidor disposto à comprar obras brasileiras em áudio, mas acabava adquirindo as obras de outros países, que nem sempre eram os títulos que eu desejava ouvir. Desde então, o desconforto apenas aumentou e acreditando no potencial do consumidor e leitor brasileiro, eu montei a Tempo Livro, que é uma empresa especializada em audiolivros e tem como objetivo concentrar o máximo de obras em áudio em um só lugar, facilitando a acessibilidade das pessoas para essas obras.
PMG: Quem são seus clientes?
Rodrigo: Muitas pessoas pensam que o audiolivro é um livro destinado apenas para as pessoas com deificiência visual, mas na verdade é muito mais. Os meus clientes são de todas as idades e estados do Brasil, porém a maioria possui uma característica em comum: alguma indisponibilidade ou dificuldade de leitura. Quando falo em indisponibilidade, foco principalmente nas pessoas que não tem tempo para ler e isso é recorrente nas grandes metrópoles brasileiras, onde um trabalhador comum gasta, em média, mais de 3 horas por dia se deslocando entre a sua casa e o trabalho. Esse número fica ainda mais alarmante quando pensamos que em apenas um ano, desperdiçamos mais de um mês de nossas vidas dentro de um automóvel, ônibus ou metrô. Essas pessoas geralmente são inconformadas com essa situação e aproveitam o tempo gasto no trânsito para ouvir um livro, se entreter, relaxar e até estudar para uma prova ou concurso público. Um outro grupo de clientes é aquele que possui dificuldade para a leitura. Essa dificuldade pode ser originada de uma deficiência visual, dislexia ou do fato de não gostar de ler. Esse grupo de pessoas geralmente “se casa” com os audiolivros, pois para muitos, este formato de livro torna-se uma das principais fontes de conhecimento e entretenimento cotidiano. Hoje em dia, já existe um terceiro grupo de clientes, que são autores e editoras que nos procuram para produzir suas obras em audiolivro, o que me deixa muito feliz, porque trabalhar com a produção de áudio é um sonho realizado.
PMG: Por que o audiolivro no Brasil não é popular se no país há 16,5 milhões de pessoas com deficiência visual?
Rodrigo: Realmente, essa é uma pergunta que me faço sempre, apesar desse cenário ter apresentado uma mudança significativa nos últimos dois anos. Anteriormente, se perguntássemos para alguma pessoa se ela conhecia alguma obra em audiolivro, ela certamente responderia: “A Bíblia gravada por Cid Moreira”. Na época, esse título foi um sucesso e todo mundo tem algum parente ou conhecido que o adquiriu. A minha mãe foi uma dessas pessoas. Utilizei esse exemplo porque acredito que a falta de títulos e editoras grandes e pequenas que trabalhem com esse formato é um dos fatores principais para se alcançar uma grande conscientização popular sobre os audiolivros. Entendo que o receio das editoras em entrarem neste novo mercado é totalmente justificável e baseado em 3 motivos: a falta de conhecimento do modelo de produção de audiolivros, o desconhecimento da população sobre este formato de livro e a pirataria. Na primeira questão nós já estamos ajudando, pois damos suporte técnico às editoras que desejam entrar e fazer a diferença nesse mercado. A segunda questão, pode ser facilmente modificada se os audiolivros passarem a fazer parte das bibliotecas das escolas públicas e particulares no Brasil. A internet é um bom exemplo de como isso funciona. Para muitas pessoas maiores de 40 ou 50 anos, a internet é um bicho de sete cabeças, mas para os adolescentes ela é tão simples e cotidiana como tomar o café ou vestir uma roupa. Isso porque quando esses jovens nasceram, a internet já fazia parte do cotidiano das pessoas e o processo de integração à esse canal de comunicação foi totalmente natural. Fazendo o paralelo com os audiolivros, se eles passarem a fazer parte das bibliotecas e material das escolas públicas e particulares, as crianças e adolescentes, deficientes ou não, passarão a ter um contato natural com este formato o qual se transformará em mais uma ferramenta para o complemento de sua educação e cultura. Por último, eu gostaria de falar sobre um assunto que não gosto, mas tenho de falar: a pirataria. Nas últimas duas décadas, todos nós vimos o movimento dos artistas e das gravadoras que tentaram através de várias formas combater a pirataria dos álbuns musicais e DVDs. Todo esse esforço não foi em vão, porém não foi suficiente para acabar com essa ilegalidade e muitas empresas do ramo faliram e várias pessoas perderam seus empregos. Muitas editoras, enxergam o mesmo futuro para os audiolivros no Brasil, mas esta visão é muito simplista e negativa, reprimindo as diversas oportunidades relacionadas à esse ramo. É importante levar em conta que a falência das empresas sonográficas não ocorreu por causa da pirataria, mas principalmente devido à demora em um novo posicionamento de mercado, como reduzir os preços dos álbuns e disponibilizá-los em diversos formatos e canais para o consumidor final.
PMG: Como uma empresa pode ter lucro e ao mesmo tempo responsabilidade social?
Rodrigo: Algumas pessoas enxergam o lucro como algo negativo, quando na verdade é algo totalmente positivo. O lucro é o que sustenta as empresas para contratarem mais trabalhadores, prestarem mais serviços, produzirem mais produtos e suprirem as necessidades da sociedade. Sobre esse assunto, eu gosto de fazer um paralelo com um trabalhador assalariado. Todo trabalhador assalariado recebe mensalmente o seu “ganha pão” que ele usa para pagar suas contas de luz, alimentação, educação e outros. O dinheiro que sobra no final do mês para ele comprar um celular novo, trocar de carro ou investir, nada mais é que o seu lucro pessoal. No dia-a-dia, assim como esse trabalhador, as empresas sem responsabilidade social podem poluir, desrespeitar seus consumidores e funcionários, infringir a lei e muitas outras atitudes que prejudicam a sociedade. Da mesma forma, um trabalhador pode desrespeitar seus colegas de trabalho, vizinhos, jogar lixo no chão, dirigir seu carro com agressividade, dentre muitas outras coisas. Para uma empresa ser socialmente responsável, não basta ela ser um exemplo de boas práticas sociais, mas também os seus funcionários, fornecedores e parceiros. Na verdade ter responsabilidade social não está diretamente relacionado ao lucro e sim na capacidade de gerar um valor positivo para a sociedade através de seus colaboradores, que individualmente devem ser exemplos de responsabilidade social.
PMG: Na sua opinião, faltam livros em aúdio ou falta informação sobre a existência deles?
Rodrigo: Acredito que faltam os dois. Hoje no Brasil, existem no máximo 400 obras em audiolivro registradas e produzidas profissionalmente. Este número está muito distante dos EUA por exemplo, onde mais de 25% de todos os lançamentos de livros no país são em audiolivro e você pode encontrar no mínimo 50 mil títulos profissionais em uma única loja. Para terem uma idéia, se produzíssemos a mesma proporção de audiolivros que são lançados nos EUA, atingiríamos mais de 15 mil novas obras em áudio por ano. Ao mesmo tempo, a falta de conhecimento dos audiolivros restringe as pessoas à buscarem e adquirem esse formato, tanto para uso próprio, quanto para presentear alguém. Felizmente, nos últimos anos, este cenário tem mudado bastante e muitas pessoas já conhecem o conceito e já tiveram alguma experiência em ouvir um bom livro.
PMG: Você acredita que daqui para frente a pessoa com deficiência será vista como um público consumidor?
Rodrigo: A empresa que não enxerga o deficiente como um importante público consumidor é uma empresa deficiente. O deficiente é apenas uma pessoa comum com necessidades especiais. Necessidades que dificilmente são compreendidas e atendidas pela maioria das pessoas. Como as empresas são compostas por pessoas, o primeiro passo para mudar a visão de uma empresa é mudar a visão das pessoas e eu acredito que a mentalidade das pessoas em relação aos deficientes já avançou muito nos últimos anos e com certeza vai avançar ainda muito mais.
Para saber mais, acesse: www.tempolivro.com.br












