Carla Abreu é advogada e uma grande mulher. Ela escreve desde 2007 no Biodiversidade - Diversidade Humana, blog que ela criou para falar sobre vários assuntos relacionados ao nanismo. Aos 27 anos, Carla que é anã, já conseguiu mudar a concepção de muita "gente grande" sobre o assunto. Com naturalidade e sensiblidade, ela faz da informação uma arma contra preconceitos e ideias equivocadas. Confira a conversa do Portal Mara Gabrilli com ela.
Portal Mara Gabrilli - Quando surgiu a ideia do blog? Carla Abreu: A idéia do blog surgiu em função do silencio e dos tabus que cercam as pessoas que possuem nanismo. Nas campanhas de inclusão a presença das pessoas com o nanismo ainda é pouco freqüente, assim como os debates acerca do assunto. Muitas pessoas possuem preconceito e auto-preconceito em função da ausência de diálogo e de informação. O blog surgiu como meio de facilitar este tipo de conversa.
PMG: Como é sua relação com seus leitores? Depois que criou o blog, algum fato te fez mudar de concepção sobre o nanismo? Carla: O contato com meus leitores é muito saudável, uma vez que trocamos idéias e nos acrescentamos mutuamente. Sim, através da pesquisa para elaborar os textos para o blog pude perceber que o preconceito não é algo inerente às pessoas e sim fruto de uma construção de valores que em certa medida são impostos. No Egito, por exemplo, não havia preconceito em relação às pessoas com nanismo que só se evidencia historicamente a partir da Idade Média. Assim, eu pude compreender que somos como qualquer outra pessoa e que nossa autonomia depende se acreditamos ou não em certos mitos.
PMG: Qual assunto você acha que é mais difícil de ser abordado no blog? Carla:Todos os assuntos abordados no blog eu tive o cuidado de pesquisar, e agregar à minha experiência de vida as de outras pessoas. O blog nasceu de uma forma muito espontânea. No início eu postava meus poemas no blog e de repente me vi falando sobre nanismo, diversidade, preconceito. Eu agradeço a Deus porque tanto a bibliografia quanto os temas e as fotos para ilustrarem os textos foram surgindo de uma forma super natural.
PMG: E como é falar sobre sexualidade em um espaço com tanta visibilidade quanto a internet? Carla: A sexualidade é um aspecto que compõe o ser humano assim como a sua personalidade. Eu penso que falar de sexualidade é falar de nossa humanidade, de nossa saúde, de nossas necessidades afetivas e fisiológicas, então eu encaro isso com muita naturalidade, sem tabus. É importante que se diga que nós, mulheres com nanismo, somos efetivamente iguais a quaisquer outras mulheres, menstruamos, temos relações sexuais, não há incompatibilidade anatômica nem fisiológica em relação aos homens de alta estatura.
PMG: Ja aconteceu alguma coisa curiosa depois que você criou o blog?l Carla: Sim, antes de escrever sobre o assunto eu costumava pesquisá-lo, mas sem muito sucesso. De repente, quando me senti impelida a escrever abertamente sobre o tema, simplesmente brotavam em minhas mãos, fotos, documentários, textos e pessoas.
PMG: Existe alguma queixa em comum entre seus leitores? Carla: Os meus leitores se queixam da falta de atitudes mais positivas das pessoas com o nanismo, bem como da ausência do diáogo sobre o assunto. Alguns de meus leitores são pais de pessoas com nanismo e encontram no blog um direcionamento, assim também o fazem muitas mulheres e adolescentes com nanismo.
PMG: O nanismo tem variações e causas diferentes. No seu caso, qual é? Carla: Existem diversos tipos de nanismo, e ainda assim variam nas características que serão manifestadas na estrutura física de cada pessoa. As causas também podem variar desde mutação genética à problemas endócrinos. No meu caso, o diagnosticado presumido foi de displasia óssea metafisaria, diagnosticada como a síndrome da cartilagem do cabelo. Pode ter sido devido a uma mutação genética ou uma herança autossômica recessiva, pois não não há caso semelhante em minha família.
PMG: E por falar em família, como é o local onde você vive... há uma preocupação com a questão da acessibilidade na sua casa? Carla: A acessibilidade para as pessoas com baixa estatura ainda é algo muito distante. Em relação aos transportes públicos, caixas eletrônicos, elevadores, sanitários públicos, prateleiras em supermercado, carrinho de compras, é inexistente. Em minha família, paulatinamente venho implementando adaptações. A autonomia é equivalente à dignidade para mim, e mesmo sendo difícil, eu a exerço plenamente. No entanto, a acessibilidade é importante no sentindo de potencializar aquilo que já somos capazes de fazer.
PMG: Tamanho faz diferença? Carla: Eu prefiro dizer que todos nós somos diferentes. Há diversidade não só em como o ser humano se apresenta mas também como as flores se apresentam, como animais se apresentam, a diferença é algo intrínseco à natureza, e assim é porque é necessário para manutenção da vida no planeta. As diferentes habilidades, vivências, do ser humano, são o que o enriquece.
Para conhecer o blog da Carla Abreu, acesse: http://carlasaraiva.blogspot.com/ |