Jairo da Costa Jr, o designer de cadeira de rodas PDF Imprimir E-mail
Qui, 10 de Setembro de 2009 19:39

Foto de Jairo da Costa JrFormado em Design Industrial com habilitação em Projeto de Produto, pós-graduado em Design Gráfico e Estratégia Corporativa e formado em Magistério Superior pela Universidade do Vale do Itajaí, Jairo da Costa Jr. é professor de disciplinas que formam não apenas profissionais, mas também cidadãos responsáveis e inovadores. Ele ministra aulas de Ecologia e Design, EcoDesign, Sustentabilidade, Oficina de Projeto e Design Marítimo I e II nas Faculdades de Belas Artes Barddal.

O Portal Mara Gabrilli conversou com ele a respeito do Projeto HEROes, uma linha de cadeira de rodas esportivas para pessoas com deficiência e restrição motora que buscam a prática de modalidades esportivas como frescobol, disco, badminton entre outros esportes, aparentemente distantes de ser praticados por quem tem uma deficiência.

 

 



Portal Mara Gabrilli -
De que maneira o seu projeto pode promover a inclusão social das pessoas com deficiência?
Jairo da Costa Jr. - A prática esportiva com o produto propõe modificar atitudes, desenvolvendo a responsabilidade social, estimulando a sociedade a adquirir uma visão equilibrada sobre as potencialidades de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Nesse processo se fortalece um sentimento de empatia que ultrapassa a proposta de integração. O produto propõe um cenário de inclusão, possibilitando além do acesso a ambientas poucos explorados como, por exemplo, a praia, a possibilidade de uma troca mais ampla: a prática de atividades físicas sem restrições.A exploração cognitiva do produto pretende resgatar o valor simbólico da figura de superação de heróis de histórias em quadrinhos com deficiência (e.g Demolidor, Charles Xavier, etc.) e Mark Zupan, personagem da vida real que representa em sua determinação e superação o espírito de um super-herói.  Por fim, um dos grandes desafios é proporcionar ao usuário a oportunidade de vivenciar sensações que irão influir radicalmente na sua vida pessoal, desenvolvendo sua auto-estima, promovendo a auto-valorização e auto-imagem.

PMG: Quando surgiu a ideia e qual o seu conceito?
Jairo: O projeto HEROes inicialmente surgiu da disciplina de projeto ainda durante a graduação em 2004 no Curso de Design Industrial. Sua pesquisa nasceu da preocupação de desenvolver soluções inovadoras que pudessem contribuir para um processo de transformação social, através principalmente da inclusão dos usuários atendidos por esse produto. O resultado desse projeto motivou seu aperfeiçoamento, resultando em seu redesign no curso de Pós-graduação.

PMG: Quem é o público alvo do seu projeto
Jairo: No Brasil cerca de 14,5% da população apresenta algum tipo de necessidade especial. Dessas 24,5 milhões de pessoas quase, 8 milhões apresentam dificuldades de ordem motora (IBGE, censo 2000). Boa parte dessa demanda poderia ser beneficiada pelo produto. Inicialmente foi interesse atender amplamente esses usuários restringindo a acesso do produto a qualquer indivíduo com necessidades especiais de ordem motora. Com o amadurecimento e qualificação do projeto do projeto, o público alvo final tornou-se mais específico: usuários praticantes de esportes (pré-determinados pelas características do produto) e/ou atividades físicas recreativas, sem restrição de gênero, jovens, adultos e idosos, com uma característica em comum – dificuldades motoras. Bom, se você continua achando que é um público amplo: essa é realmente a proposta! Propõem-se diversos “mecanismos” físicos e cognitivos para permitir o acesso a uma diversidade expressiva de usuários.

PMG: Qual a sua opinião a respeito do design universal aqui no Brasil?
Jairo: Não me considero qualificado ainda para discutir a aplicação do design universal no Brasil. Porém acredito ter liberdade como acadêmico em criticar a atenção dada a essa disciplina na academia. O Design Universal presume uma parte essencial de qualquer projeto de produto, porém sua aplicação no ambiente acadêmico (baseado em experiências pessoais) é limitada. Isso ocorre também na aplicação do ecodesign e design para a sustentabilidade. Como futuros profissionais os estudantes não podem privar suas idéias de compreender esses conceitos tão necessários e importantes para nossa nova realidade social. 

PMG: Qualquer cadeirante que pratique esportes pode adquirir a linha? Ou seja, pessoas com deficiência (tetraplégicos, por exemplo) podem usar estas cadeiras?
Jairo: A linha de cadeiras de rodas esportivas HEROes é composta por três produtos. A Hero Zupan é adequada ao acesso a terrenos arenosos como praias, parques, dunas e demais ambientes com essas características. Com a possibilidade de adaptação de rodas comuns ela torna-se facilmente uma cadeira de uso diário. Esse modelo representa toda a determinação de Mark Zupan, jogador da seleção Norte Americana de Rúgbi sobre cadeira de rodas. Já, Hero Daredevil (Demolidor) possui características funcionais desenvolvidas para a prática de rúgbi de areia, focando o uso ofensivo nessa prática esportiva. Hero Xavier é adequada para a prática de rúgbi de areia, focando o uso defensivo nessa prática esportiva. Esses produtos foram desenvolvidos para usuários com lesão medular (paraplégicos e tetraplégicos), usuários com outras lesões musculares e ósseas que restrinjam sua mobilidade e idosos que possuem dificuldade para a prática de atividades físicas/recreativas/esportivas sem o uso de um produto específico como o proposto. Em função das diversas possibilidades, alguns usuários podem necessitar de ferramentas auxiliares como cintos, talas ortopédicas, etc. para utilizar o produto.

PMG: A área de design está apta para desenvolver projetos de acessibilidade em seus trabalhos?
Jairo: O design é uma profissão multidisciplinar. O processo de design dedica grande atenção quanto à fase de pesquisa e desenvolvimento, fato que implica na maior consistência no resultado final do projeto. Há uma infinidade de ferramentas e métodos para testar, validar, qualificar e experimentar uma solução para uma necessidade. Essas e outras características tornam a área de design apta para o desenvolvimento de projetos de acessibilidade em seus trabalhos. Porém, estar apto não significa ter êxito. Isso realmente dependerá atuação de cada profissional, principalmente dedicando a atenção necessária a aplicação do design universal em seus projetos.

PMG:  No seu curso, por exemplo, como a questão da acessibilidade é vista?
Jairo: Seu estudo se limitava a uma pequena abordagem dentro da disciplina de ergonomia.

PMG: É possível desenvolver projetos acessíveis tanto no desenho quanto para o bolso?
Jairo: É possível atender requisitos de acessibilidade sem grande influência quanto à viabilidade econômica. Alguns casos podem ser realmente onerosos, porém são normalmente questões muito específicas. A própria legislação quando seriamente aplicada, garante que o descaso com a acessibilidade no projeto de produtos gere um custo adicional ao projeto, invertendo essa idéia de valores

PMG:
Você tem experiência na área da acessibilidade? Já trabalhou com pessoas com deficiência?
Jairo: Durante a primeira pesquisa do produto em 2004 foi realizada um visita a Associação de Deficientes Físicos da Foz do Itajaí. Foi realizada também uma entrevista com o Vereador Maurílio Moraes, cadeirante (devido a um acidente doméstico) que se destaca como uma figura atuante na proteção dos direitos dos indivíduos portadores de necessidades especiais no Vale do Itajaí. A pesquisa estendeu-se também a documentários, em especial o filme MurderBall, que retrata fielmente a proposta de transformação social que propõe o produto.

PMG:
Como unir estética e funcionalidade?
Jairo: Posso responder essa pergunta em apenas uma palavra: design. Essa resposta pode não satisfazer todos leitores. Por isso, gostaria de convidar todos a conhecerem o Projeto HEROes. Nesse projeto, dentro das minhas limitações e o atendimento de outros requisitos, há a busca em unir a estética com a funcionalidade do produto.

  Conheça mais sobre o Projeto HEROes 



 

 
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