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Drama vivido por 33 mil tetraplégicos na capital é revelado por atriz na novela "Viver a Vida"
A cidade de São Paulo tem 33 mil pessoas que vivem como a modelo Luciana, a personagem de Alinne Moraes na novela “Viver a vida”, que ficou tetraplégica após sofrer um acidente de trânsito. No Brasil, o número chega a 362 mil. Na vida real, colisões em motos, carros e ônibus também foram as principais responsáveis por lesões traumáticas na medula nos últimos três anos.
O total de portadores de algum tipo de lesão na coluna vertebral, independentemente do tipo de acidente que a causou, é de 937 mil pessoas no país, das quais 85 mil vivem na capital.
Segundo pesquisa da clínica de lesão medular da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), 38,6% das pessoas que ficaram paraplégicas e tetraplégicas nos nove primeiros meses deste ano envolveram-se em acidentes de trânsito. A maioria viajava em moto — 61,4%. Em segundo lugar estão as vítimas de tiro, que até 2005 eram maioria.
A consultora empresarial Flávia Cintra, de 36 anos, 18 deles vividos em cadeira de rodas, acompanha atentamente as cenas interpretadas pela atriz. Flávia, que ficou tetraplégica depois de um acidente de carro, tem mantido encontros com Alinne para relatar sua experiência, sua maneira de ver o próprio corpo, e a relação com a sexualidade. Tudo para ajudar a compor a personagem Luciana. “Trabalhar com Alinne tem sido gratificante. Ela é incrível e vestiu a camisa das pessoas deficientes com sensibilidade e grandeza que me impressionam”, diz.
O capítulo em que Luciana saberá de sua deficiência vai ao ar nesta semana. “Ela viverá todas as fases pelas quais passei, de dor, angústia, luto, até aprender a administrar o significado dessa perda e iniciar o processo de reconstrução da vida”, afirma. Flávia sempre acreditou que voltaria a andar. Ao descobrir que a realidade era outra, reagiu. “Não precisei esperar andar para começar a viver. Hoje, vivo como outras mulheres, driblando dificuldades e me dividindo entre a família e o] trabalho.”
Mãe do casal de gêmeos Mateus e Mariana, de 2 anos, Fláviase emociona ao lembrar como os filhos aprenderam a andar. “Eles se penduravam na barra atrás da cadeira de rodas, ficavam em pé e me empurravam. E eu derramava rios de lágrimas.” Tetraplégica há 15 anos, a vereadora Mara Gabrilli, de 41 anos, diz ser falsa afirmação de que pessoas na condição dela não sentem nada. “Temos mais de 25 tipos de sensibilidade. Se perdemos uma, desenvolvemos outras. Temos que fazer uma viagem pelo próprio corpo. E comemorar cada conquista.”
DEUS ME SALVOU E TENHO MUITO A FAZER
Na noite de 28 de junho de 2007, o motorista de ônibus João Batista da Silva, de 48 anos, foi abordado por um casal de assaltantes que se passava por passageiro. Ameaçado, teve de desviar o itinerário da linha e entrar em uma estrada de terra, na região de Varginha, Zona Sul. No caminho,n ouviu dois tiros e “apagou”. Cinco dias depois, acordou no hospital, tetraplégico.“Levei um tiro na testa, entre os olhos, e outro no ombro, que atingiu a coluna. As duas balasainda estão alojadas”, conta.
Desde então, João tenta se adaptar à nova vida. “É duro. Quem trabalha e tem vida ativa entra em depressão se para de produzir. Mas entendi que, se Deus preservou minha vida, é porque tenho muito a fazer.”
O estudante Genilson dos Santos, de 22 anos, luta desde abril de 2007 para superar a tetraplegia, após um acidente de trânsito na Rodovia BR-116. “Já consigo movimentar os ombros e manter o controle do corpo na cadeira de rodas”, comemora.
Genilson voltava de uma festa, de carona com um amigo, quando o carro capotou. Ele e o primo Diego dos Santos, de 26 anos, que estavam no banco de trás, tiveram as vértebras esmagadas.“ Na hora perdi a consciência e, quando acordei, já estava no hospital, com fratura exposta no fêmur e outra na coluna. Graças à cirurgia, consegui recuperar os movimentos dos braços e das pernas e, hoje, tenho vida normal”, conta Diego.
Hoje, Genilson procura levar a vida como outros jovens de sua idade. Na sexta-feira passada, ao ver o sofrimento da personagem de Alinne de Moraes na novela das oito, a família dele não conteve as lágrimas. “Voltamos ao dia do acidente”, diz a mãe de Genilson.
TRAUMA CAUSA MAIS LESÕES
O fisiatra Marcelo Aires, gerente médico da unidade Ibirapuera da Associação de Assistência à Cr iança Deficiente (AACD), diz que aproximadamente 80% das lesões medulares são consequência de traumas causados em acidentes de trânsito, ferimentos de arma de fogo, queda ou acidentes de mergulho.A idade média das pessoas atingidas varia de 30 a 36 anos.
“As lesões medulares atingem uma parcela da população ativa, que deixa de produzir e passa a ter mais gastos”, diz.
Na opinião do médico, o governo deveria investir mais em campanhas preventivas e melhorar o atendimento às pessoas com deficiência física, incentivando a formação de fisiatras.
Aires afirma que a sociedade precisa estar preparada para receber as pessoas com deficiências. “As empresas contratam os deficientes porque precisam cumprir a cota. Mas não é um trabalho cultural”, observa.
Para a consultora empresarial Flávia Cintra, é preciso construir acessibilidade, não só arquitetônica como humana. “As pessoas precisam se desvencilhar de seus preconceitos. Geralmente, a deficiência física está associada a uma história triste. Mas, em outros países, isso é visto apenas como uma característica”, diz Flávia.
Fonte: Diário de S. Paulo - Cristina Christiano |