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Paralisada do pescoço para baixo, sinto-me livre para buscar o céu, se assim eu o desejar um dia.
Prisão de percepções
Em dezembro do ano passado, próximo ao natal, recebi um convite para iniciar um ciclo de palestras em presídios femininos. A iniciativa foi apresentada pelo secretário de Estado da Cultura, Andrea Matarazzo, por meio de um projeto cultural da Fundação de Amparo ao Preso (Funap). Na ocasião, falei de superação e cidadania para 120 presas, enquanto a ocupação do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro dominava as manchetes dos jornais.
Cheguei ao local com mente e coração abertos, sem saber exatamente como seriam preenchidos. Meu objetivo era levar palavras de esperança e motivação para mulheres envolvidas com tráfico de drogas – muitas destas acostumadas a violar seus próprios corpos em busca de transportar entorpecentes para outros países.
De maioria estrangeira, as reeducandas absorveram cada uma de minhas palavras com atenção. Vestidas todas com o mesmo uniforme, carregavam consigo emoções distintas e (ainda) desconhecidas por mim. Quietas, ouviram- me atentamente – muitas não conseguiram conter as lágrimas.
Tem sido basicamente assim nossos encontros. Mas, desde a primeira palestra até hoje, carrego diferentes ensinamentos destas mulheres. O principal diz respeito à evolução humana. Nessas palestras, em que nos ouvimos e nos doamos um pouco, percebo que a liberdade tem diferentes formas, assim como nossas escolhas, que podem nos levar a prisões – algumas construídas por celas de segurança, outras erguidas por ideias presas a nossa cabeça.
Paralisada do pescoço para baixo, sinto-me livre para buscar o céu, se assim eu o desejar um dia. Plenas em movimentos, muitas daquelas mulheres se vêem enclausuradas, não pelo espaço físico delimitado, mas pela falta de perspectivas de um futuro mais livre para buscar a felicidade.
Fico cheia de esperança quando vejo sinais de que minha aparente paralisia mexe de alguma forma com elas, despertando-as para um movimento interno. Uma tetraplégica fazendo com que outras mulheres se mexam e deslumbrem uma maneira de evoluir, estejam presas ou soltas. Paradas ou em movimento, a evolução acontece quando encaramos o mundo como passível de ser enfrentado, independente de nossas ditas limitações. Meu processo de evolução se iniciou assim. E depois de algumas visitas a estas casas de detenção, vejo que não sou a única a crescer.
Muitas presas cobram-me políticas públicas dentro das penitenciárias. Falam sobre as condições em que vivem, como se envolveram no crime, como pretendem se livrar desta vida se algum dia tiverem uma oportunidade, falam de sonhos... Mas, os relatos mais interessantes são das presas que, ali mesmo na cadeia, conseguem viver de maneira muito mais livre que quando entraram.
Ao partir destes encontros, depois de algumas horas de conversa, sinto-me, paradoxalmente, mais livre que nunca. A sensação de liberdade é latente no peito. Sempre saio destes presídios torcendo para que muitas Maras saiam de lá prontas para, na hora certa, encararem o mundo novamente, desta vez sob o comando delas mesmas.
Lembro-me de uma jovem que só depois de se tornar detenta começou a estudar para prestar o vestibular. Do tráfico para a faculdade... O poder de evoluir está em nós e nenhum esbarrão da vida é capaz de lhe subtrair o desejo de se reinventar e crescer. Somos a maior prova disso.
*Texto publicado no portal Nextel |